17 de mar de 2011

Vazamento de radiação no Japão ameaça planos de expansão da energia nuclear.



Vazamento de radiação no Japão ameaça planos de expansão da energia nuclear.



Os problemas nas usinas nucleares do Japão no fim de semana estão sendo acompanhados de perto na Ásia inteira, onde vários governos estudam construir dezenas de novos reatores, apesar da oposição de grupos ambientalistas que há muito tempo argumentam que esse tipo de instalação é inseguro numa região propícia a desastres naturais.

Só na Ásia, governos previam construir mais de cem novas usinas, o que agora pode não ocorrer.

A China, o Vietnã, a Tailândia e outros países asiáticos têm planos para mais de cem usinas atômicas, parte de um esforço regional para diversificar as fontes de energia além da tradicional dependência desses países do petróleo, do gás natural e do carvão. As usinas são consideradas peça fundamental da corrida asiática para atender à demanda diante da expansão vertiginosa do consumo.
Essa iniciativa também impulsionou a cotação mundial do urânio nos últimos anos, criando grandes oportunidades de expansão para fabricantes de equipamentos nucleares como a GE.
Num dos primeiros indícios de que o vazamento de radiação causado pelo tsunami que atingiu a usina Fukushima Daiichi, no norte do Japão, pode gerar munição para os críticos da energia atômica, o premiê da Tailândia, Abhisit Vejjajiva, disse que o incidente pode "influenciar a decisão de construir ou não usinas nucleares na Tailândia", e que o país precisaria analisar mais a segurança antes de decidir se prosseguirá com os planos.

A estatal Autoridade Geradora de Eletricidade da Tailândia planeja construir a primeira usina do país até 2020, com 1 mil megawatts, mas ainda precisa de aprovação do governo. O governo estuda construir pelo menos quatro outras usinas.
Numa entrevista posterior no mesmo dia, o porta-voz Panitan Wattanayagorn disse que Abhisit sempre foi contra a energia nuclear, pois teme o risco de incidentes como o do Japão e a possibilidade de ataques terroristas. "As pessoas que apoiam os planos precisam apresentar respostas para essas duas questões", disse Panitan, embora enfatize que o premiê esteja disposto a ouvir e que não vai impor seu ponto de vista se outras facções do governo decidirem que o país precisa das usinas.

A China, o país da Ásia que mais está construindo usinas nucleares, reafirmou seu compromisso com a expansão da capacidade de geração nuclear nos próximos dez anos, e autoridades do governo e da indústria nuclear disseram no fim de semana que a adoção nacional do que é conhecido como a tecnologia de terceira geração torna o país menos suscetível a alguns dos riscos de colapso do núcleo dos reatores enfrentados pelos reatores japoneses mais antigos.
"Algumas lições que aprendermos com o Japão serão empregadas na fabricação das usinas nucleares da China", disse o vice-ministro de Proteção Ambiental da China, Zhang Lijun. "Mas a China não vai mudar sua determinação de desenvolver a energia nuclear."

A oposição à energia nuclear às vezes reacende na Ásia, embora analistas concordem que teria de ser muito maior para forçar países menos democráticos, como a China, a abandonar seus planos. A oposição tende a ser mais forte em países com governos democraticamente eleitos e importantes movimentos ambientalistas, como Índia, Indonésia e Tailândia, bem como em áreas de falhas geológicas ou propícias a tufões.
A Indonésia adiou a construção de sua primeira usina anos atrás, em parte por causa de protestos de camponeses que temiam possíveis danos em terremotos. As Filipinas abandonaram uma usina de US$ 2 bilhões e 620 megawatts construída em 1984 numa área de atividade sísmica ao norte de Manila, por causa de temores quanto à segurança e acusações de corrupção na construção. O projeto onerou o governo com dívidas enormes.
É provável que os ambientalistas tentem apresentar novas queixas sobre os planos asiáticos de desenvolvimento de energia nuclear.

"Tenho conhecimento de que a economia em crescimento desses países precisa de muita eletricidade, mas é tão perigoso escolher a energia nuclear", disse Ria Verjauw, do grupo ambientalista Amigos da Terra, da Bélgica. O episódio no Japão "precisa ser uma lição importante para o mundo inteiro" de que é preciso repensar os projetos nucleares, disse ela.
A China já informou que o aumento da capacidade de geração nuclear será uma peça importante para alcançar seu ambicioso plano de reduzir as emissões de gases do efeito estufa e diminuir a dependência do país de combustíveis fósseis importados. O governo planeja aumentar para 86 gigawatts a capacidade de geração nuclear até 2020. Atualmente a capacidade das usinas da China é de 10,8 gigawatts, ou 1,9% da capacidade total de geração do país.

A China nunca enfrentou um colapso de núcleo, em que há derretimento do combustível nuclear. Mas uma usina na Baía de Daya, perto da cidade sulista de Shenzhen, teve um pequeno vazamento de radiação ano passado, mas autoridades disseram que ele não colocou em risco a saúde pública.
A expansão nuclear chinesa depende muito de tecnologia importada, incluindo sistemas de terceira geração produzidos pela Westinghouse, comprada pela Toshiba Corp. em 2006. Lu Qizhou, gerente geral da Corporação de Investimento em Energia da China, uma importante geradora estatal de energia nuclear, disse que os projetos chineses com a mais nova tecnologia podem contornar os problemas no sistema de resfriamento que ocorreram no Japão, porque seus sistemas são operados pela força da gravidade e não usam eletricidade, segundo a Xinhua.
Construir usinas cada vez mais no interior do país tem sido um dos pilares da estratégia chinesa de expansão nuclear. O desenvolvimento da Usina Nuclear Xianning, na província de Hubei, é uma prova disso e ela planeja usar a tecnologia de terceira geração da Westinghouse que as autoridades disseram que diminui os riscos maiores criados pela instalação de usinas nucleares longe de grandes fontes d'água, vital para a operação dessas instalações.

"É igual a um vaso sanitário, não precisa de eletricidade", disse Lu sobre os reatores de terceira geração, segundo a Xinhua.
Enquanto isso, o Vietnã planeja construir por até US$ 12 bilhões duas usinas, suas primeiras, na cidade costeira de Ninh Thuan, no sul do país. A primeira usina deve começar a ser construída em 2014. No longo prazo, o Vietnã espera construir pelo menos 13 reatores em 8 usinas.
Se os países asiáticos não conseguirem desenvolver o volume de energia nuclear que planejam, podem enfrentar dificuldades para atender à demanda futura. Já há apagões consideráveis em algumas áreas, especialmente em parte do Sudeste Asiático, onde a demanda por eletricidade deve triplicar até 2030 ao mesmo tempo em que diminuem as outras opções, segundo a consultoria de energia Wood Mackenzie. O suprimento de gás natural de algumas áreas já está se esgotando e a oposição de ambientalistas ao uso de carvão dificulta que os governos de lugares como a Tailândia financiem novas termelétricas gigantes.

Apesar dos reveses iniciais à energia nuclear na Indonésia, as autoridades estudam reiniciar o planejamento de novas usinas, para atender à enorme escassez de eletricidade do país. Os defensores das usinas querem que o governo construa duas delas nas ilhas Bangka Belitung, na costa de Sumatra e ao sul de Cingapura.
A província fica do outro lado de Sumatra, afetada por um tsunami em 2004 que matou mais de 100 mil só na Indonésia. (Colaboraram Wilawan Watcharasakwet, Oranan Paweewun e Yayu Yuniar)


Fonte
(Valor Econômico)

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